Tempo de leitura: 3 minutos

O que é preciso para se sentir realizado no trabalho? Uma pesquisa da ETALENT, empresa de tecnologia especializada em gestão da mudança pessoal e em educação do comportamento, revelou que apenas 39% dos brasileiros estão felizes em seus empregos. Esses dados levantam discussões sobre os fatores que impedem que as pessoas se sintam realizadas com aquilo que passam a maior parte de seu tempo fazendo: trabalhando.

É fácil perceber que nos últimos anos o mercado e a cultura organizacional andam passando por inúmeras transformações, e muitas delas são consequência das inovações e tecnologias digitais que abriram o mindset de muitos líderes, fazendo com que eles enxergassem além da curva.

Após muitos anos de estudos, uma pesquisa feita pela Harvard University apontou que o fator-chave que mais influencia a autorrealização no trabalho é a criação de um ambiente corporativo mais flexível. Constatou-se que 40% das pessoas se sentem infelizes em trabalhar em um ambiente hierárquico, onde não há proximidade entre a equipe e o líder, e muito menos liberdade para falar sobre suas dificuldades e frustrações.

Por isso hoje, muitas empresas e startups andam adotando um jeito mais “cool” de trabalhar, como uma maneira de deixar seus colaboradores mais livres, e incentivá-los a ser mais produtivos e criativos.

Alexandre Pellaes – especialista em modelos e práticas de gestão compartilhada com foco no futuro do trabalho e das relações entre organizações e trabalhadores – conta nesta entrevista o que ele acha da cultura organizacional que muitas empresas andam adotando atualmente. Alexandre comenta também sobre os pontos positivos e negativos que essas mudanças podem trazer para os funcionários e suas organizações. Confira a seguir!

HSM: Como você vê as mudanças que andam acontecendo na cultura organizacional hoje em dia?

Acredito que estamos em um momento de intensa transformação dos modelos organizacionais e das relações de trabalho, o que demanda muita abertura para diálogo e construção conjunta.

O modelo Comando e Controle mostrou-se o mais eficiente do ponto de vista dos negócios, mas não é sustentável do ponto de vista humano. As pessoas não aceitam mais operar no esquema “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Claramente, precisamos criar novos modelos com liderança compartilhada e ação em equipe, para que as organizações possam ser vistas de fato como plataformas para o desenvolvimento das pessoas. Isso é humanizar as organizações, fomentar um ambiente de desafio, interação, aprendizado e reconhecimento.

HSM: O que é “propositite” e como ela pode afetar negativamente o ambiente empresarial?

Ouvi o termo “propositite” há alguns meses – acredito que foi em um papo com a Lala Deheinzelin – e achei que se encaixa perfeitamente no momento atual. Além de ser bem divertido.

Propositite é uma doença que está contaminando tudo no mundo do trabalho. Há dois sintomas principais: a busca desenfreada por um propósito mágico e superior, que vai salvar o planeta. Algo que vai acabar com a fome, curar o câncer ou renovar a natureza; e a procura por propósito em todas as microtarefas do dia a dia, confundindo os meios com os fins.

Quando a ”propositite” ataca, as pessoas são contaminadas pela lamentação diante de sua realidade atual, em vez de trabalharem na construção do significado e do propósito positivo de “o que fazem”, “como fazem” e “quem impactam”. Isso vai ajudá-las a chegar ao “por que fazem”. Somos nós que imprimimos significado às coisas. Ninguém encontra o propósito por aí, pronto, em uma gaveta ou embaixo da mesa…

HSM: O que é preciso para ser feliz no trabalho?

Eu acredito que há alguns elementos que poderão ajudar nessa conquista. E, nessa frase, já está a primeira dica: é uma conquista!

Um fator muito importante é a autorrealização, que é a necessidade de uma pessoa se desenvolver e se reconhecer no mundo, por meio da ação. Ou seja, a necessidade de um trabalhador se enxergar naquilo que faz. Isso não é possível quando há um ambiente muito fechado, rígido e com foco exclusivo na tarefa.

As organizações precisam permitir mais espaço para os trabalhadores e os trabalhadores precisam preencher o espaço com protagonismo e ação!

HSM: O que precisa ser mudado no mindset da liderança para que se promova uma cultura organizacional mais inovadora?

A criatividade é uma característica natural das pessoas autorrealizadas. Isso quer dizer que, quando uma pessoa está reconhecendo o impacto de seu trabalho, ela tende a se aventurar, criar e “brincar de pensar”. Há mais leveza na criação e na inovação.

Para isso, a liderança tem de se mostrar mais aberta e vulnerável. É necessário sair do modelo em que o chefe manda ou toma a decisão e apenas comunica a equipe explicando as razões, e entrar em uma forma de gestão compartilhada, em que as pessoas se enxerguem como parte relevante do processo de tomada de decisões. Acredite! O tempo investido na etapa antes da decisão, ao incluir as pessoas, será compensado pela ausência de resistência após a decisão tomada.

É necessário parar de compartilhar respostas e compartilhar perguntas! A liderança não precisa ter resposta para tudo. Vamos dizer mais “não sei” e “preciso de ajuda”.

Tudo isso só é possível se houver ética, compromisso e valores sérios. Não pode ser só discurso. A grande mudança de mindset da liderança é deixar de ser um “líder interessante” e passar a ser um “líder interessado”.

Receba novidades por e-mail.